Estas memórias ou recordações são intermitentes e por vezes fugidias na memória, porque a vida é precisamente assim. É a intermitência do sono que nos permite aguentar os dias de trabalho. Muitas das minhas recordações desvaneceram-se ao evocá-las, ficaram em pó como um vidro irremediavelmente ferido. As memórias do memorialista não são as memórias do poeta. Aquele viveu talvez menos, mas fotografou muito mais, recreando-nos com a perfeição dos pormenores. Este. entrega-nos uma galeria de fantasmas sacudidos pelo fogo e pela sombra da sua época. Não vivi, talvez, em mim mesmo; vivi, talvez, a vida dos outros. De quanto nestas páginas deixei escrito se desprenderão sempre — como nos arvoredos de Outono, como no tempo das vindimas — as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que viverão no vinho sagrado. A minha vida é uma vida feita de todas as vidas — as vidas do poeta.
(1974 póstumo)
Editora: Europa-América, 1975
Tradução: Arsénio Mota
Medidas: 14 x 21 cm
Peso: 381.00
Páginas: 339
|