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Milan Kundera - A Cortina
2018-05-04, 1:41 PM

Prosseguindo, e de certo modo desenvolvendo, as reflexões constantes dos seus livros de ensaios anteriores — A Arte do RomanceOs Testamentos Traídos — , Milan Kundera oferece-nos em A Cortina uma estimulante viagem aos locais mais emblemáticos do romance moderno. 
O mundo é-nos sempre ocultado por uma "cortina" de interpretações pré-cozinhadas, de imagens falaciosas, de representações enganadoras. A função do romance é precisamente rasgar essa "cortina" para revelar os fragmentos de verdade a que só os verdadeiros romancistas podem fazer-nos aceder. "Uma cortina mágica, tecida de lendas, estava suspensa diante do mundo. Cervantes enviou Dom Quixote em viagem e rasgou a cortina." "Rasgar a cortina" é um gesto que se prolonga em cada romance digno desse nome. 

excerto


O suave vislumbre do cómico 

A seguir a um serão mundano passado na presença da senhora Arnoux por quem estava apaixonado, Frédéric de A Educação Sentimental, embriagado com o seu futuro, volta para casa e pára diante de um espelho. Cito: «Ele achou-se bonito — e ficou um minuto a olhar-se ao espelho.»

«Um minuto». Nesta medida exacta do tempo reside toda a enormidade da cena. Ele pára, olha-se ao espelho e acha-se bonito. Durante um minuto. Sem se mexer. Frédéric está apaixonado, mas não pensa naquela que ele ama, de tal forma se encontra encadeado por si próprio. Ele olha-se ao espelho. Mas ele não se vê a olhar-se ao espelho (da forma como Flaubert o vê). É que ele encontra-se fechado no seu eu lírico e não se apercebeu de que o doce vislumbre do cómico pousara sobre si e o seu amor.

A conversão antilírica é uma experiência fundamental no currículum vitae do romancista; distanciado de si próprio, ele vê-se subitamente à distância, espantado por não ser aquele por quem se tomava. A seguir a esta experiência, ele passará a saber que nenhum homem é aquele por quem se toma, que esse mal-entendido é geral, elementar, e que projecta sobre as pessoas (por exemplo, sobre Frédéric postado diante do espelho) o doce reflexo do cómico. (Esse reflexo do cómico, subitamente descoberto, é a recompensa, discreta e preciosa, da sua conversão.)


(2005)

Editora: Asa, 2005 (1ª edição)

Páginas: 143

 

Categoria: Ensaio