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| 2018-05-04, 1:41 PM | |
excerto O suave vislumbre do cómico A seguir a um serão mundano passado na presença da senhora Arnoux por quem estava apaixonado, Frédéric de A Educação Sentimental, embriagado com o seu futuro, volta para casa e pára diante de um espelho. Cito: «Ele achou-se bonito — e ficou um minuto a olhar-se ao espelho.» «Um minuto». Nesta medida exacta do tempo reside toda a enormidade da cena. Ele pára, olha-se ao espelho e acha-se bonito. Durante um minuto. Sem se mexer. Frédéric está apaixonado, mas não pensa naquela que ele ama, de tal forma se encontra encadeado por si próprio. Ele olha-se ao espelho. Mas ele não se vê a olhar-se ao espelho (da forma como Flaubert o vê). É que ele encontra-se fechado no seu eu lírico e não se apercebeu de que o doce vislumbre do cómico pousara sobre si e o seu amor. A conversão antilírica é uma experiência fundamental no currículum vitae do romancista; distanciado de si próprio, ele vê-se subitamente à distância, espantado por não ser aquele por quem se tomava. A seguir a esta experiência, ele passará a saber que nenhum homem é aquele por quem se toma, que esse mal-entendido é geral, elementar, e que projecta sobre as pessoas (por exemplo, sobre Frédéric postado diante do espelho) o doce reflexo do cómico. (Esse reflexo do cómico, subitamente descoberto, é a recompensa, discreta e preciosa, da sua conversão.) (2005) Editora: Asa, 2005 (1ª edição) Páginas: 143
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| Categoria: Ensaio | |
Prosseguindo, e de certo modo desenvolvendo, as reflexões constantes dos seus livros de ensaios anteriores — A Arte do Romancee Os Testamentos Traídos — , Milan Kundera oferece-nos em A Cortina uma estimulante viagem aos locais mais emblemáticos do romance moderno.